A pobreza e a pílula

Terremotos são mais dramáticos.

Tsunamis dão melhores imagens na TV. Aids é mais visceral. Mas este é um desafio mais amplo, mas também com maior possibilidade de ser enfrentado: a falta de meios de controle da natalidade em muitos países pobres.

Estou na minha jornada anual através de um pedaço da África Central com um estudante universitário de 19 anos, Mitch Smith. Ele ganhou o direito de sacolejar em estradas impossíveis pela região, onde é fácil ver em primeira mão como o rápido crescimento populacional está ligado a pobreza, instabilidade e conflito.

Em quase todas as vilas em que paramos, conversamos com famílias cujas cabanas estão cheias de crianças pequenas — cujos pais não têm recursos para educá-las, alimentá-las e protegê-las.

Aqui em Kishasa, capital da República Democrática do Congo, encontramos Emilie Lunda, 25 anos , que quase morrera ao dar à luz alguns dias antes. Médicos salvaramlhe a vida, mas o bebê morreu. Ela ainda se recupera no hospital e não sabe como pagar a conta.

— Não queria ficar grávida. Tinha medo — disse-nos. Mas ela nunca ouvira falar de controle de natalidade.

Nas áreas rurais da República do Congo, o outro Congo ao norte, descobrimos que mesmo quem já conhecia a contracepção a achava muito cara. Mais espantoso, todas as clínicas e hospitais que visitamos na República do Congo disseram que só venderiam contraceptivos a mulheres que levassem seus maridos com elas, para provar que eles tinham aceitado o controle.

Preservativos são, de alguma forma, mais fáceis de conseguir, mas muitos homens resistem a usá-los.

A impressão é que os homens sentem orgulho de uma prole numerosa como sinal de virilidade.

Assim, a pílula, que está fazendo 50 anos este mês nos Estados Unidos, ainda tem que alca nçar partes da África.

E preser vativos e outras formas de controle da natalidade ainda são muito difíceis de obter em algumas áreas.

O amplamente respeitado Instituto Guttmacher, dos EUA, que pesquisa sobre saúde reprodutiva, diz que 215 milhões de mulheres no mundo são sexualmente ativas e não desejam a gravidez, mas não estão usando as modernas formas de contracepção.

Tornar o controle da natalidade disponível para todas essas mulheres custaria menos de US$ 4 bilhões, informou o Guttmacher num importante estudo publicado no ano passado. É o mesmo que os Estados Unidos gastam a cada duas semanas na guerra no Afeganistão.

Ainda mais, cada dólar empregado em contracepção cortaria o dispêndio médico total em US$ 1,4 bilhão ao reduzir os gastos com nascimentos não planejados e abortos, segundo o estudo.

Se a contracepção estivesse amplamente disponível em países pobres, informou o documento, mai s de 50 milhões de gestações não desejadas poderiam ser evitadas a cada ano. Um resultado disso seriam 25 milhões de abortos a menos por ano. Outro seria salvar as vidas de 150 mil mulheres que hoje morrem por ano no parto.

O planejamento familiar estancou desde os anos 80. Administradores republicanos cortaram todo o financiamento americano para o Fundo Populacional das Nações Unidas, o principal organismo internacional que apoia esse programa. Paradoxalmente, a hostilidade conservadora em relação a alguns programas de planejamento familiar quase certamente resultou em maior número de abortos.

O governo Obama restabeleceu aquele financiamento, e deveria tornar prioridade o acesso mais amplo à contracepção (e a educação das meninas, que pode ser o fator mais eficaz de todos).

Para ser justo, planejamento familiar é mais difícil do que parece. Muitos homens e mulheres pobres, especialmente os sem instrução, desejam mais os bebês que os contraceptivos. Na medida em que visitávamos as aldeias, Mitch e eu perguntamos a muitas mulheres quantos bebês desejavam ter, se pudessem. A maioria respondeu cinco ou seis, umas poucas, dez.

Pais desejam ter muitos bebês, em parte, porque acreditam que alguns vão morrer. Assim, cortinados para afastar mosquitos, vacinações e outras formas de reduzir a mortalidade infantil também ajudam a criar um ambiente mais propício ao planejamento familiar.

Em resumo, é necessária uma abordagem mais abrangente para assistir homens e mulheres com planejamento familiar — não apenas uma farmácia com contraceptivos.

Romerchinelle Mietala, uma adolescente de 17 anos em Mindouli, na República do Congo, já tem um bebà ª e nos disse que, na verdade, ela não deseja outro por enquanto. Mas nunca ouviu falar de contraceptivos e, quando explicamos de que se trata, foi ambivalente. Mostrou preocupação com seu status na aldeia se não ficasse grávida de novo num tempo razoavelmente breve.

— Se uma mulher não tiver um bebê a cada dois ou três anos, as pessoas dirão que é estéril — disse ela.

Outra mulher em Mindouli, Christine Kanda, afirmou que agora está pronta para parar, depois de ter oito filhos, dois dos quais morreram. Mas não sabe se seu marido a acompanhará à clínica para ligar as trompas nem como pagará a conta de US$ 1 por mês que o hospital cobra.

Assim, é grande o risco de que ela continue a produzir bebês.

NICHOLAS D. KRISTOF é jornalista “The New York Times”

Fonte:  O Globo

25/05/2010

Brasil

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s